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# Guia Prático de Operação de Fornos Rotatórios de Cal Funcionamento Partida Parada e Controle Diário

A calcinação do carbonato de cálcio CaCO3 para a regeneração do óxido de cálcio CaO representa uma etapa crítica no ciclo de recuperação química do processo Kraft nas indústrias de celulose e papel.

Historicamente, a lama de cal (lime sludge ou lime mud), oriunda da reação de caustificação do licor verde, era considerada um resíduo e descartada em rios ou tanques de rejeito. A partir da década de 1920, a busca por redução de custos com a compra de cal comercial impulsionou a implementação dos fornos rotatórios de cal, tornando a sua operação eficiente um pilar indispensável de economia e sustentabilidade operacional.

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## 1. Como Funciona um Forno Rotatório de Cal

![](https://content.gitbook.com/content/tO6FXSYkYvOihrPvlFRV/blobs/Bb2BIIdnA9LOFjeKkGuK/thumb_5500936c4ca4238a0b923820dcc509a6f75849b.jpg)

### Alimentação e Sistemas de Alimentadores (Kiln Feed and Feeders)

Para produzir cal de alta qualidade a uma taxa uniforme, o forno exige uma alimentação contínua e com composição constante.

* **Desidratação da Lama:** A lama de cal vinda do processo é desidratada antes de entrar no forno por meio de filtros de tambor a vácuo, filtros de disco ou centrífugas, reduzindo o teor de umidade de 55%-65% para a faixa de 35%-50% (alcançando teores de sólidos secos entre 50% e 75%).
* **Rosca Transportadora:** O bolo de lama de cal desidratado é introduzido na extremidade fria do forno (cold end) por uma rosca transportadora (screw conveyor), revestida com uma jaqueta de água na seção estendida para o interior da conexão para suportar as elevadas temperaturas dos gases de exaustão.

### Mecânica Cilíndrica e Fluxo em Contracorrente

O forno rotatório consiste em um longo tubo de aço revestido internamente com tijolos refratários, montado sobre anéis de rolamento (riding rings) suportados por rolos sobre pilares de concreto.

* **Inclinação e Rotação:** Apresenta uma inclinação geométrica de 1,5º a 3º ou 2º a 5º e rotaciona lentamente a velocidades tipicamente entre 0,5 e 2 RPM (podendo variar de 1 a 5 RPM conforme o projeto).
* **Tempo de Retenção e Contracorrente:** Essa combinação mecânica promove o deslocamento gradual dos sólidos da extremidade superior de alimentação para a extremidade inferior de descarga (hot end), com um tempo de residência entre 1,5 e 4 horas. O processo opera em contracorrente: a lama de cal desce enquanto os gases quentes de combustão sobem em sentido oposto.

![](https://content.gitbook.com/content/tO6FXSYkYvOihrPvlFRV/blobs/RxbJlIcggAHPf4PCYjZH/thumb_5343511eccbc87e4b5ce2fe28308fd9f2a7baf3.jpg)

### As Quatro Zonas Térmicas do Processo

A transformação da lama de cal em cal reburnt ocorre ao longo de quatro zonas térmicas no interior do forno:

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### Zona de Secagem

Evaporação da água residual contida na lama pela troca térmica direta com os gases quentes de exaustão.
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### Zona de Aquecimento

Aquecimento do pó seco de lama de cal até atingir a temperatura de reação \~800º.
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### Zona de Calcinação

Reação endotérmica de dissociação do carbonato de cálcio (CaCO3 + calor -> CaO + CO2), onde a temperatura da matéria sólida varia entre 800ºC e 1100ºC.
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### Zona de Resfriamento e Aglomeração

Resfriamento da cal reburnt e aglomeração do pó fino em grânulos antes da descarga pelo cabeçote.
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![](https://content.gitbook.com/content/tO6FXSYkYvOihrPvlFRV/blobs/aY0nORpw2zI4Hr9OlOnP/thumb_4707216c81e728d9d4c2f636f067f89cc14862c.jpg)

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## 2. Procedimento de Partida do Forno (Starting Up)

A partida de um forno rotatório exige uma sequência padronizada para evitar choque térmico nos refratários e deformação mecânica na carcaça metálica:

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### Ignição do Queimador e Ajuste de Tiragem

Inicia-se o sistema de queima de combustível a taxas reduzidas. O abafador do exaustor (exhaust fan damper) deve ser ajustado para manter uma pressão levemente negativa no cabeçote de queima 0,00 a 0,05 pol. de coluna d'água, evitando o vazamento de gases quentes.
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### Ajuste da Chama

A chama deve ser ajustada para evitar o contato direto (impingement) com os tijolos refratários.
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### Rotação Intermitente Preventiva

Para prevenir o empenamento do cilindro devido ao aquecimento desuniforme, o forno deve ser girado exatamente 180 graus a cada 15 minutos durante a primeira hora de aquecimento.
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### Alimentação Gradual

Inicia-se a alimentação de lama a uma taxa baixa e opera-se o forno em velocidade reduzida na hora seguinte.
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### Elevação Sequencial da Carga Térmica

Aumenta-se o combustível gradualmente, garantindo que a temperatura do gás de exaustão permaneça abaixo de 550 °F (288 °C). O forno deve atingir incandescência antes da descarga de produto.
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### Sincronização de Velocidade e Carga

À medida que a alimentação e a velocidade sobem para os níveis operacionais, ajustam-se continuamente a taxa de combustível e a tiragem do exaustor.
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## 3. Controle Diário e Relatórios Operacionais (Daily Operational Reports)

A estabilidade do processo exige o registro e acompanhamento constante de parâmetros-chave. A prática operacional estabelece o preenchimento de relatórios diários com entradas de hora em hora pelos operadores.

Os parâmetros fundamentais registrados no relatório diário incluem:

* **Temperaturas Operacionais:** Monitoramento contínuo das temperaturas do cabeçote (hot-end), da zona de calcinação/queima, da extremidade fria (cold-end) e dos gases de exaustão.
* **Parâmetros da Lama e do Produto:** Registro da vazão de alimentação (l/s), densidade da lama, teor de sólidos secos %, CaCO3 residual e teor de CaO disponível analisados em laboratório.
* **Variáveis Mecânicas e de Pressão:** Velocidade de rotação (RPM), torque/corrente do motor principal e pressão na extremidade fria (cold-end pressure).

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**Nota de Controle:** Um aumento na pressão da extremidade fria ou variações no torque atuam como indicativos indiretos da formação de anéis de incrustação (rings), permitindo intervenções operacionais preventivas.
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Esses relatórios horários são encaminhados à supervisão para consolidação mensal e rápido diagnóstico de anomalias.

![](https://content.gitbook.com/content/tO6FXSYkYvOihrPvlFRV/blobs/INcvTV54OxGd5QEaVt5V/thumb_1605517a87ff679a2f3e71d9181a67b7542122c.jpg)

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## 4. Procedimento de Parada do Forno (Shutting Down)

O desligamento do forno requer uma rotina criteriosa para gerenciar o resfriamento térmico gradual da estrutura:

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### Corte de Combustível e Alimentação

Interrompe-se o fluxo de combustível, a alimentação de lama e o exaustor de gases, fechando o abafador.
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### Rotação Inicial

Mantém-se a rotação do forno em velocidade mínima por 5 minutos antes de pará-lo totalmente.
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### Escala de Giros Intermitentes Durante o Resfriamento

* **1ª Hora:** Girar o forno exatamente 180 graus a cada 5 minutos.
* **2ª Hora:** Girar o forno exatamente 180 graus a cada 10 minutos.
* **Até o Resfriamento Completo:** Girar 180 graus a cada 30 minutos até que o equipamento esteja frio.
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### Resfriamento Forçado Segurado

O exaustor não deve ser religado enquanto o forno estiver incandescente. Após o forno perder o calor vermelho (red heat), abre-se a porta do cabeçote e aciona-se o exaustor regulando o abafador para puxar ar de resfriamento sem sobrecarregar o motor.
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### Procedimento para Falha de Energia

Em caso de queda de energia elétrica, deve-se acionar o motor auxiliar de emergência (a gasolina ou diesel) para manter rigorosamente a rotina de giros de 180 graus.
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### Proteção Contra Interrupções na Alimentação

Se houver uma falha nos equipamentos anteriores e o forno precisar operar temporariamente sem carga de lama mas com o queimador aceso, deve-se injetar água na extremidade de alimentação na mesma vazão correspondente à água da lama. Isso mantém a carga térmica na extremidade fria e evita danos térmicos no sistema de correntes (chains).
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<summary>Fontes</summary>

* **ADAMS, Terry N.** **Lime Kiln Principles and Operations**. Atlanta: TAPPI Press, 2008.
* **DERNEGÅRD, Henric.** **Dusting in a Lime Kiln**: Characterization of the material and unit operations. 2019. 45 f. Dissertação (Licentiate in Engineering) – Department of Chemistry and Chemical Engineering, Chalmers University of Technology, Gothenburg, Sweden, 2019.
* **JÄRVENSIVU, Markku et al.** **Intelligent control system of an industrial lime kiln process**. *Control Engineering Practice*, Amsterdam, v. 9, n. 6, p. 589–606, 2001.
* **KÜSSEL, Uwe et al.** **Modeling of Rotary Kilns and Application to Limestone Calcination**. In: INTERNATIONAL MODELICA CONFERENCE, 7., 2009, Como. *Proceedings \[...]* Como: Modelica Association, 2009. p. 84–91.
* **MICHAUD, David.** **Rotary Lime Kiln Operation**. *911Metallurgist*, 29 nov. 2016. Disponível em: <https://www.911metallurgist.com/blog/lime-kiln-operation-work/>. Acesso em: 10 set. 2026.
* **OPERAÇÃO, Modelagem e Otimização de Fornos Rotatórios de Cal**. \[*S. l.*: *s. n.*], 2024.
* **RIPPON, Lee et al.** **Visualization of Multiscale Ring Formation in a Rotary Kiln**. *Nordic Pulp & Paper Research Journal*, De Gruyter, 2021.
* **RYAN, Jarod; BUSSMANN, Markus; DEMARTINI, Nikolai.** **CFD Modelling of Calcination in a Rotary Lime Kiln**. *Processes*, Basel, v. 10, n. 8, art. 1516, p. 1–24, 2022.
* **TEGEHALL, Linda; TÖRMÄLÄ, Janice; JAREMAN, Fredrik.** **Combined systems and detailed model of the lime kiln**. Stockholm: ÅForsk / ÅF-Industry AB, 2017. (Report ID: 6057857).

</details>


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